domingo, 1 de novembro de 2009

espuma

enquanto ele se banha
eu o vejo
através
da porta
entreaberta
do banheiro

os olhos
projetam
o clique da memória

fotografia precisa

dos cabelos molhados
do corpo sem pelo
do rosto escondido
atrás de um par de palmas
brancas
(dedos roxos
d'água)

da espuma que desliza
pelas
bordas
do dorso
até a rola
que balança
solta
leve
feito bailarina louca

ele não vale uma memória
não passa de uma porta entreaberta

domingo, 13 de setembro de 2009

cordialidade

o sorriso de dentes embranquecidos
quase novos
nunca esteve tão amarelecido
quase anêmico de anima
mecanismo automatizado de cordialidade
crachá de babaca.

DISTÂNCIA

a cama era grande demais
para aproximar os dois.

poema fedorento

meto o dedo no cu e cheiro:
- fede a chetoos!

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

último gole

"it took me a long time to find
the most interesting person to
drink with: myself..."
(Charles Bukowski)

o copo
que não transborda,
já se foi
a última saideira.

em breve as portas baixarão,
o balcão seco
federá a cinza & cerveja.

cadeiras de pernas p'ro alto
ocuparão todas as mesas
vazias.

o silêncio bêbado
amolará os quatro cantos do boteco
cheio
de nada.

reverberando
o barulho da bica
solitária que

pinga.
pinga.
pinga.
tristíssima.

banheiro sem papel
vomitando tédio
bombardeado
de naftalina.

ninguém se importa em dar descarga.

enquanto eu desço
ralo adentro
sem ter dado
meu último gole.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Quando tudo que resta no fim da noite é fúria & silêncio, não há nada melhor do que acender um cigarro e se perder na fumaça que some. É foda entender como vinte minutos de conversa basta p'ra estragar um dia inteiro. Mas não faz mal. Nunca acreditei em felicidade como estado imutável ou condição permanente de regozijo - pois felicidade e dor partilham da mesma essência. Assim como esterco é merda, a gestação da dor é sempre sucedida pelo nascimento do alívio. Enquanto a vida é uma puta cheia de filhos.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

oh, mundo! vasto mundo...

se eu me chamasse Raimundo

seria apenas uma rima?

ou um motoboy

nordestino

da Rocinha?

quarta-feira, 27 de maio de 2009

pernas de joão do pulo

a ladeira do morro da pedreira se encontrava mais lamacenta que de costume, objetos deslizavam como confetes multicolores adornando a enxurrada de barro laranja carregada de papéis, garrafas plásticas e sacos de supermercados, que terminavam por desaguar no asfalto. aquele outono de data incerta fora precedido por umas águas de março que não fechariam o verão e as estações sofreram uma estranha simbiose resultando em dias secos de noites chuvosas. Na infância nunca tivera problemas para subir o morro correndo, já que acreditava que suas pernas longas, vez e outra, manifestavam feitos mágicos, como da vez em que foi perseguido pelo dobbermann do dono do morro e saltara com pernas de joão do pulo o muro da pequena igreja pentecostal, na rua monte das oliveiras, a fim de se livrar no mínimo das mordazes mordidas caninas. não se importava com machucados e arranhões, pois embora não compreendesse o processo de cicatrização acreditara nas palavras da mãe que dizia: – “meu filho, o tempo a tudo cura”. e as memórias daqueles dias eram cristalizadas involuntariamente, tatuadas de preto na pele em carne viva, se tornando imunes às brumas elétricas do tempo. às vezes as advertências proferidas pelos lábios da mãe soavam pouco inteligíveis, eram ouvidas sem serem escutadas, e o menino bêbado de tanta água, deslizava as extremidades do guarda-chuva empenado, que rodopiava entre a palma das mãos em forma de prece, apressando o passo desengonçado que afundava, melecando a calça da escola, na ânsia de chegar em casa somente para apreciar a sinfonia que caía sobre o telhado.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

poemóides


a palavra muda:
que titubeia o coração
urro inexprimível
de símbolos reticentes

perecíveis
impressas e inflamáveis
contagiosamente empoeiradas
cátedra dos cupins

sacro transgressoras
do Eu Sou
retórica de satã

projeção cega
liquefeita nos olhos
em cataratas

instante opaco
capturado e cristalizado
a dez passos da posteridade
a um passo do esquecimento

tentação indecorosa
broxantemente decadente
piranha? piranha!
dá pra quem quer tê-la

mal entoadas
melodramaticamente nasais
concluídas, inacabadas e oclusivas

átonas atônitas
grafadas em letras garrafais
gafe ágrafa

a palavra que emudece
muda

***

sorry, narciso!
pois ai de ti
quando o tempo der contigo

a esplendidez do teu passado de glórias
não passará de esvanecidas memórias

dias cálidos, loucamente desenfreados
emurchecerão o róseo de teus lábios despetalados

pois o tempo – vil algoz – levará de ti, consigo,
da melodia da voz até os dentes do sorriso

teus olhos castanhos tornar-se-ão vermelhos
esvanecendo teu reflexo deslustrado do espelho

então o rejúbilo de teus dias findará
e teu corpo, membro por membro, adoecerá

sentirás no cerne
a horripilante putrefação da juventude

enquanto os vermes
aguardarão do teu banquete com inquietude!

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

desapropriação

os olhos esbugalharam atônitos ao perceberem as maledicências que uma boca de caráter duvidoso cochichava aos ouvidos atentos. os cabelos denotavam perplexidade ouriçando involuntariamente a nuca despudorada; enquanto mãos espalmadas, irrequietas, titubeavam com as pontas dos dedos um par de joelhos indiferentes. o pescoço taxativo se movia de um lado para o outro, explicitando total descontentamento. as narinas curiosas logo se meteram no assunto, afirmando que algo não cheirava bem. os pés sequer moveram um passo de tanta indignação. dentes rancorosos rangiam amarelecidos de raiva. bochechas rosas, repletas de botões de cravos, enrubesciam tímidas. axilas tempestuosas suavam litros sobre uma tez anêmica com cara de defunta. mamilos enrijecidos deram uma de joão-sem-braço. o coração cardíaco tinha ataques claustrofóbicos – por isso vivia a base de remédios – dentro de um dorso apertado e escuro. a cintura não tinha nada a declarar além da própria inocência. é sabido que até as virilhas eram coniventes. as pernas trêmulas entraram em estado de choque ao terem conhecimento da tomada da bunda. a princípio o pau ficou puto, mas teve de ceder.
tarde demais: o buraco do cu havia sabotado o corpo inteiro.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

à espera do Eng. Carmona




preciso sair. sentir o sol que cora a morena e depois seca tudo: flor, espinho e primavera. o mormaço de fora, convidativo, bate à porta e pede um copo d’água (chapéu apertado contra o peito, estendendo a cálida e humilde mão): - faz o favor? sair se torna preciso. sensação de ficar entre a cruz e o diabo, quero dizer... ar-condicionado. o tempo congelado do lado de dentro. o tempo com motor envenenado do lado de fora. desassossego de abalos sísmicos que assombra a cada meia hora. suo entre os braços, gota a gota, contrariando às leis do antitranspirante, então penso: logo existo (menos mal). perambulo de um lado pro outro, perco coisas, tornando o calor mais pavoroso – pobre de mim sem protetor solar. acendo um cigarro, sento e relaxo: logo fico (uff! menos mal).



Rio, 9/12/08.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

diário de um pecador

Rio 02/03/94 (3:05 AM)Peço ao Senhor todos os dias em minhas preces para não me deixar cair em tentação, mas o espinho parece penetrar na carne cada vez mais fundo. Perdi dez quilos desde que entrei em jejum e sinto que isso contribui apenas para aumentar o tamanho do deserto que se fez minha alma - "Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?!" Essa tarde, depois da escola dominical, fiquei encarregado dos meninos do grupo de louvor da igreja, os Cordeiros de Cristo. Na fazenda Lira de Davi, onde é ministrado o retiro espiritual, milhares de famílias se dirigem para cá afim de não se inflamarem com a concupiscência gratuita desta época. Aqui nos refugiamos da roda dos escarnecedores. Partilhamos da mesma fé e deixamos a cidade grande durante a festa da carne, vulgarmente conhecido como carnaval, para nos desviar das setas do inimigo. O pastor Saulo tivera de resolver, logo no primeiro dia do retiro, alguns problemas relacionados a morte da pobre mãe, a quem não mantinha contato há dois anos. Disse-me que com a ausência de sua esposa, a missionária Rute, não haveria outra opção senão confiar tal tarefa a mim:"- O seminarista e estudante de teologia, é claro!", acrescentou ele. Mal tive tempo de pensar sobre a proposta quando fui surpreendido com a buzina do táxi do irmão Tomé apressando o Pastor. Esperei-o partir para me entregar a um medo que me arrebatara de súbito. Um terror incompreensível me afligia – não, eu o conhecia e sabia o que era. Corri em direção ao quarto, tranquei a porta e me pus de joelhos, escondendo o rosto com as mãos e pedindo ao Senhor que me desse forças, pois a minha fé era do tamanho de um grão de mostarda. Sei que Ele não me provaria além do que eu pudesse suportar. Orei com todas as minhas forças e chorara quarenta dias e quarenta noites de lágrimas antes de desmaiar.




Rio 03/03/94 (9:45 PM)Acordei por volta das 10 da manhã com um pouco de dor na cabeça mas confiante na minha tarefa, e como de costume entreguei o caso nas mãos de Deus, permitindo que fosse feita a Sua vontade. Após o término do almoço estava programado uma atividade recreativa em uma cachoeira, a trinta minutos de distância daqui. Senti calafrios dos pés à cabeça e lembrei-me dos meus tempos de menino, quando meus pais costumavam levar-me para programas de férias desse tipo. O diácono Henrique, um senhor muito bondoso de cabelos brancos ralinhos, em dias de batismo - que se davam eventualmente em rios e cachoeiras - tomava conta dos meninos da minha igreja que ao avistarem a queda d'água tratavam de despir-se, caindo na água alvoroçadamente. Eu era muito tímido. Tinha vergonha do meu próprio corpo e daquilo que fazia com ele. Quando me dava conta dos outros meninos evidenciando suas vergonhas, desprovido de pudores – eu os invejava e queria ser como eles. Eu queria estar entre eles, tê-los ao meu lado – de modo a reviver minha infância. Atividades físicas nunca me foram permitidas pois diziam que eu era feito de “porcelana”. Ficava encantado ao ver os moleques mais peraltas mergulhando n’um fôlego só, atravessando por entre as pernas de três ou quatro meninos. Os mais encorpados davam cascudos nos menos favorecidos por puro capricho sádico e isso de qualquer forma me excitava. Aqueles delicados corpos desengonçados, protegidos apenas por uma penugem quase invisível, celebravam a vida em sua plenitude – e isso de qualquer forma me denunciava, despertando em mim sensações alheias ao meu corpo. Lá fomos nós, os meninos do grupo de louvor e eu, para a cachoeira. Eles tinham entre dez e treze anos e estavam sob minha responsabilidade, enquanto seus pais assistiam palestras direcionadas exclusivamente aos adultos. Nessas ocasiões eram discutidos diversos assuntos: os homens eram exortados quanto aos deveres do varão abençoado; as mulheres aprendiam como lidar com as pressões familiares habituais – tudo isso sob uma perspectiva cristã nada tradicional. O movimento pentecostal reformado frutificava cada vez mais e seu número de membros triplicara nos últimos anos. Prefiro não descrever minha experiência dessa tarde. Receio que apagá-la de minha memória seria o mais conveniente. Não quero dar chances para a semente do pecado germinar, senão seria o meu fim.

Rio 04/03/94 (8:47 PM)Não consegui dormir a noite inteira. Fechava os olhos, e ainda assim no meio escuro, reconhecia o sorriso dos cascudos e lá estavam eles: todos demoniacamente desavergonhados. Os semblantes angelicais se transformaram em algo indescritivelmente grotesco. Suas mãos deram lugares a tentáculos, agarrando-me violentamente enquanto suas línguas de serpente ora devoravam-me a boca, ora cuspiam sementes de Satã. "Abstinência é sabor de fel na carne crucificada", assim lia-se nos olhos chispantes de cães famintos. Das profundezas do Hades clamei ao Senhor três vezes – porém anjo algum veio ao meu auxílio. E pensar naquele pecado distinto, perdurando um sabor cada vez mais doce em meus lábios, costas, pernas, ser. O inferno aquecia minha alma ternamente. A carne prevalecera sobre o espírito sem clamar indulgência. Não saí do meu quarto o dia inteiro. Não quero conversar com ninguém. Disse aos que vieram a minha procura que estava indisposto mas que isso passaria. Preciso espairecer meus pensamentos. Minha alma está doente e só o Senhor pode curá-la.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

meu mundo caiu


no camarim, em frente ao espelho retangular, a moldura ornada de pisca-pisca ressaltava a expressão enfadada da atração mais notória do último cabaré da lapa. madame mink apreciava o frescor da dose dupla de cuba libre, tragando-a lentamente, ora chupando o canudinho, ora lambendo os lábios carmesins. fazia um calor atípico naquela noite de inverno e o suor descia-lhe do pescoço gota-a-gota, se perdendo nos ombros largos e perfumados de shalimar. antes de entrar no palco olhou languidamente para a foto de bette davis, que pendia ao lado esquerdo do biombo oriental em tons sombrios, e arrepiou-se. havia algo de sinistro naquele olhar emoldurado que a observava de soslaio. jamais o percebera exceto àquela noite. beijou as contas de oxum, presenteadas por uma paixão antiga que estivera de visita no gantois de mãe menininha; levantou-se da cadeira, ajeitou o vestido de lantejoulas prateado que evidenciava a silhueta pouco delgada e seguiu em direção ao refletor que a faria brilhar. erguem-se as cortinas. no centro do palco um feixe de luz pálido promulga a aparição da artista. ela surge cabisbaixa – mas ‘inda assim radiante – ao som de um trompete soturno embalado por uma orquestra tristíssima. fecha os olhos como se estivesse em um transe ritualístico. eleva o microfone gentilmente a altura dos seios alegóricos. sem emitir sequer um som dos lábios, interpreta o samba-canção:
­
– meu mundo caiu e me fez ficar assim ­– continuou como se a dor fosse deveras sua:

você conseguiu

e agora diz que tem pena de mim

não sei se me explico bem

eu nada pedi

nem à você nem à ninguém

não fui eu que caí

sei que você entendeu

sei também que não vai se importar

se meu mundo caiu

eu que aprenda a levantar

ao término da apresentação agradece aos aplausos com um sorriso cortês; de repente do fundo da platéia lhe atiram uma rosa de plástico. Sente-se lisonjeada pelo singelo troféu de puta e novamente agradece ao carinho e a gentileza dispensados. depois despede-se do público e retorna ao camarim.

tratou de vestir-se apropriadamente para deixar o cabaré, e assim que o fez decidiu partir. se não fosse pela mão robusta daquele estranho lhe segurando o braço esquerdo talvez lhe restasse outra saída:

– hei, espera aí – disse o estranho.

– oi?! ­– retrucou madame mink, armando um sorriso tão artificial quanto a rosa ofertada, enquanto piscava os olhos freneticamente de maneira um tanto afetada.

– você é show, hein?! Realmente demais aquilo...show de bola mesmo!

– muitíssimo obrigada, meu querido!

a barba por fazer somada aos galanteios insossos denunciavam a inexperiência púbere do rapaz. nem por isso notou menos aquela beleza ordinária, dessas que passam quase despercebidas. madame mink chegou a confundi-lo com um dos peões que descarregavam caixotes de legumes para a feira de domingo no passeio, mas achou pouco provável devido ao corpo magro e esguio.

– posso te pagar uma bebida ou coisa assim?

– é que eu já ‘tava de saída ­– replicou ela. em seguida, corrigiu-se enrubescida: – bem, pelo menos estava até alguns segundos...

– isso quer dizer que eu tenho alguma condição? – indagou o rapaz, levantando sobrancelhas e polegares, demasiado confiante de si.

– bem... – hesitou ela, unicamente para não soar fácil demais: – antes eu preciso saber o seu nome, porque não tenho o costume de beber com estranhos.

– beleza! meu nome é Diogo, prazer! e beijou-a duas vezes, da esquerda para direita, sendo que na terceira deslizou os lábios sorrateiros, denotando explicitamente suas sacanas intenções.

ele que dispunha de alguns trocados pagou a coca-cola. ela a garrafa de rum montilla. bebericaram duas, não mais de três doses de cubas, com ímpetos de afugentar a timidez e quando se deram conta lá estavam os dois se embebendo de luxúria em um motel barato na gomes freire. diogo a comia sem pena. ela dava horrores. ambos fodiam-se sem pudores. madame mink, agora de bruços, sentia todo peso do corpo magro e esguio de diogo. as mãos rudes de feirante apertavam-na os ombros largos, deslizando até o pescoço suado. tinha a sensação de que as mãos do rapaz pesavam mais e mais. sentiu-se sufocada, mal podia respirar. diogo lhe sussurra com hálito quente ao pé do ouvido, quase encostando a língua em seu lóbulo: – não tenho pena de você... a cama girava como um furioso furacão enquanto madame mink piscava os olhos freneticamente – só que desta vez sem afetação. o shalimar fora substituído pela delicada fragrância da morte. a tez pálida, sem feixe de luz, sem refletor, prenunciava o baixar das cortinas para a cena final: meu mundo caiu – pensou ela antes de deixar o palco. diogo guardara o pau recém-gozado dentro das calças jeans, abandonando o cadáver frio que jazia ali, debruços, de olhos abertos, contemplando a garrafa de rum montilla e a rosa de plástico sobre o rádio AM/FM ao lado da cama daquele motel sujo.

domingo, 2 de novembro de 2008


"Parem o mundo que eu quero descer..."

(Raul Seixas)

desautomatizar... e se fazer escrever algo sobre a vida; a vida em função “repeat”; a vida que não funciona para ser contada; ser o sinal vermelho que interrompe, sem parar o fluxo – porque o fluxo – ah, o fluxo... –, amigo, ele não pára! – não atender a droga do telefone celular – vai desfrutar aquele novo velho som, que você baixou na internet por pura piração, por não ter o quê fazer, por não ter saco de ler, por não ter saco de escutar as músicas favoritas, por não ter saco “de não ter saco”, enquanto conversa com um velho amigo novo, que não pára de fumar, igualzinho a você, sobre como tudo passa rápido, as horas, os dias, semanas, meses, de repente é mais um ano – porra tudo passa rápido pra caralho! – deixa o porra do telefone tocar! o fluxo segue sem pena, neguinho!; A vida de novela mexicana, com direito a menina-pobre-ingênua-que-se-casa-contra-gosto-da-família-do-mocinho-rico-com-pretende-também-rica-malvada-que-persegue-à-mocinha e tudo: -“clichê”, é o caralho!; a vida que furou o CD e o vinil de tanto repetir, que te faz ficar ancorado no passado, perdendo tudo que acontece neste exato instante; sobre a vida que “aos trancos e barrancos” ainda se faz escrita... desautomatizando...

judia de mim, judia


à paula gicovate


judia de mim, judia
parce que c'est belle,
minha bela,
la dolce vita

let's gonna chope the night away
e dá-lhe farofa
e dá-lhe galinha
longa vida à rainha de copas,
à rainha de copa,
à desdêmona hipocondríaca
salve, salve, regina!

judia de mim, judia
m'embala com chorinhos
tuas dores de bolero
chorinhos de tua perfídia
em tristes tangos argentinos
dor & música & verso

judia de mim
beutiful, beatiful, beautiful,
judia,
judia,
judia!

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Muchachas de Copacabana


Quando Xavier dissera a Odete que jamais haveria outra "mujer" que lhe fizesse tão feliz quanto a ex-pobre garota de programa, os olhos azuis-turquesa do Espanhol reluziam confissões de um amor sincero. A primeira vez que o Espanhol viera ao Rio foi paixão à primeira vista: as belas praias, a cidade imperial de Petrópolis, a Vista Chinesa, a melodia sussurrada do engraçadíssimo sotaque carioca - e as belas meninas que exibiam seus corpos torneados tal como o majestoso Pão de Açúcar. Não que fosse do tipo turista sexual, não era essa a questão, era homem de bem e de negócios, de caráter sóbrio. Além do mais que mal haveria em se deixar inebriar pelos lábios de cana-de-açúcar destilado das renomadas Muchachas de Copacabana? Conhecera outros gringos nos prostíbulos da Zona Sul e vez e outra ia de encontro aos novos amigos para tomar um drinque, jogar conversa fora e, é claro, apreciar as meninas. Na noite em que trocara olhar com Odete não contava com a peça que o destino lhe pregaria. Tudo estava em seu perfeito lugar, como deveria estar. “ – Tem fogo?”, perguntou Odete. “ – Si, si, claro!”, respondera ele gentilmente ao clichê em forma de convite de aproximação. Odete não intencionava flertar com o Espanhol – uma das meninas de fato lhe tomara o isqueiro emprestado e minutos depois desaparecera com um cavaleiro inglês. Era sua quarta semana na batalha e só não deixara de exercer a profissão mais antiga do mundo por gratidão à Velha Sofia – cafetina de luxo e estrela cadente dos tempos de ouro da Rádio Nacional. Sofia lhe estendera a mão solícita quando a mulata da baixada fluminense cansou-se da revenda de cosméticos: “ – quem consegue viver com míseros quatrocentos reais por mês?”, reclamava Odete antes de dedicar-se a tal empreitada. O Xavier bem que se divertiu com o ritmo caliente de Odete. Como haveria de ser. Odete tinha um quê de bossa-nova, uma tristeza tépida quase elegante. Seus olhos negros e irresolutos descompassavam o Espanhol dos pés à cabeça. Xavier não percebera mas no primeiro encontro já se podia dizer que estava tão enovelado quanto as tranças nagô da jovem mulata. As visitas ao Brasil tornaram-se cada vez mais freqüentes, até que um dia não resistira mais e entregou os pontos: “– Compramos um apartamento e dividiremos o mesmo teto de hoje em diante”, disse com ar de príncipe encantado. Tudo parecia as mil maravilhas para o casal mais feliz do ano. A Odete, que a essa altura havia se matriculado no curso de psicologia, acabara de concluir seu primeiro período na faculdade e para comemorar Xavier levou-a para Paris. Ela contava toda prosa, com o sorriso do gato de Alice, tudo que havia aprendido nas aulas de introdução a psicanálise, enquanto os dois saboreavam a garrafa de Beaujolais Nouveau, vinho favorito de Xavier, no restaurante Chez René no Quartier Latin. Depois o casal de enamorados amaram-se loucamente sob as luzes difusas da Pont Neuf, como haveria de ser. De volta ao Rio, os dois seguiram contentes até um certo mês de Agosto, um ano após a viagem. Xavier se dera conta de como seus ímpetos masculinos o haviam traído. Certa tarde em que Odete se encontrava na faculdade, o Espanhol acometeu-se de uma terrível saudade dos tempos em que não acordava todos os dias com a mesma mulher. Não que duvidasse de seu amor por Odete, só que por alguma razão inexplicável a felicidade lhe amargara o paladar. Tudo havia se tornado tediosamente previsível. Sua nova vida no Rio não lhe reservara mais surpresas. Do alto de sua cobertura em Copacabana, Xavier se vira enfadadíssimo. Foi quando resolveu discutir o caso com Odete de forma sincera: disse que preferia ser honesto com ambos. Não queria feri-la mas precisava de um tempo para refletir sobre a vida a dois. E como é sabido por todos: dar um tempo é tarefa individual. Odete não questionara a decisão do Espanhol, porém foi obrigada a chorar quando juntou seus pertences para nunca mais voltar. Era uma vez Cinderela. Ao decorrer de três meses, o suficiente para cicatrizar as feridas de amor, Xavier preferiu não abrir mão da cobertura – afinal o Rio de Janeiro não pagaria o preço por um caso de amor malogrado. Ao findar do sétimo mês lá estava ele novamente a passar noites em prostíbulos, jogando conversa fora com outros gringos, bebiricando seus drinques, cercado das mais belas damas de aluguel de Copacabana. Tudo estava em seu devido lugar, como deveria ser. Houve uma noite em que seus instintos exaltados falaram mais alto e ele resolveu levar uma menina para cobertura. Saciou seu apetite carnal com a mulata mais cobiçada da boite Help. Ao término do serviço sexual - que não incluía dormir em forma de conchinha - a menina, sem fazer cerimônia, pediu o lhe era de direito, vestiu-se e foi embora. Estirado na cama de casal, ainda nu, Xavier acendera um cigarro sorrindo e pensou: o amor é uma puta que se despede sem beijos. Como haveria de ser.

domingo, 21 de setembro de 2008

apropriação poética ou chupação inescrupulosa?

Imponente, fica olhando pra mim com esse ar de quem me conhece por inteiro, e conhece. Sabe das minhas crises, do quanto eu esperneio, do quanto eu quero um pouco mais de tudo, do meu choramingar amor como menina mimada. Sabe que é a ele a quem eu vou recorrer, sabe que vou sentar e desfiar rosários, que é pra ele que conto os segredos mais pesados, o que ninguém mais sabe, o que ás vezes nem eu sei. Ele me disseca, me reescreve por partes, me documenta feridas, mexe onde eu não quero que doa, me aponta a vida tão crua, tão sobriamente real, tão cheia de casos e pessoas esquecidas atrás de lugares em mim que não mostro pra ninguém. Ele conhece todas que aqui habitam. A folha em branco, objeto de desejo de noites insônes, de pseudo epifanias criativas, de cartas de amor rasgadas, de sonhos que duram uma semana, é quase uma anatomia do meu corpo. E hoje ela não vai saber de nada. Essa dor é só minha. De mais ninguém.

(Paula Gicovate)
***

ninguém mais
só ele me reescreve
ele desfia a vida esquecida
de pseudo cartas de amor dissecadas
o quanto quero feridas criativas das minhas crises rasgadas
de sonhos insones e apontados
ele conhece
sobriamente crua
essa mimada de rosários brancos
de todas as partes um pouco
onde eu quero que doa
anatomia de dor
(esperneio pesado)
me documenta aqui
os segredos de uma menina imponente

sábado, 16 de agosto de 2008

primeira postagem

sábado quente. o café desperta meus sentidos sem afugentar a preguiça. martinho da vila canta no rádio "quem é do mar não enjoa" – já enjoei de praia. copacabana me engana? cansei-me dos superbacanas. nem acordei com naúsea sartriana esta tarde: o dia parece tão bonito lá fora. tenho pena das pobres plantinhas enterradas no vazo terracota. necessito um pouco de ar e água fresca. espero não desistir de escrever antes de me divertir um pouco.