quarta-feira, 22 de junho de 2011

da laje avoava


pipas espaço-naves

gatos elétricos

aviões de mentirinha



entrei no void de vera à vera

de cabeça

na hora da queda, torci o pescoço

e gritei: socorro!

valei-me, nossa senhora!



sem pressa

muita calma nesta hora!

agora respita fundo

e conta 'té dez



vespas vampiras

avoavam vinte vezes

sob a cabeça qu'inda era minha

pelo menos, até aquela quinta



enquanto vera verbalizava o void

da laje vizinha

uma legião de crackudos ninjas

uma horda de copinhos guaravita

suspendiam a cabeça

que era minha por direita até quinta



cabeça achada não é roubada



a cabeça fora hackeada

pelo void de vera

que a todo invadia







viagem longuinqua

cheia de ferrovias imaginárias

mototaxistas siderais

marafos quânticos de axé

bafômetros blitz metafísica

sábado, 7 de maio de 2011

sobre projeções delicadas num encontro cretino a ferro & fogo & r-22 (ou "o cúmulo da falta de coincidência no barro vermelho") - PARTE IV

ela demarcava seu território varonil com unhadas e chupões. impedia T de aparar os pêlos pubianos, conferindo rigorosamente, dia após dia, um a um. ela, a grande exploradora da gruta sem segredo. e se a outra não 'tivesse interessada em competição? e se tudo que a outra quisesse fosse gozar no corpo rígido e suado do macho alheio? pior ainda: e se tudo que a outra necessitasse fosse apenas um macho? indagava-se no silêncio escuro em chamas, enquanto percorria as narinas adestradas em busca de aromas estrangeiros no corpo T. revirou a cueca suada estirada sobre o chão do banheiro antes de entrar no banho. sabia que as manchas de porra amarelavam quando secas, respingos minúsculos um pouco acima dos culhões. carteira, celular, correio eletrônico - nada passava desapercebido.
ela tinha plena consciência do casamento de T, mas nas suas pirações a outra, a esposa, era a intrusa.

T não poderia abandoná-la tão facilmente, mas ela sabia o preço que deveria que pagar por tal capricho. afinal, não é o amor grande capricho? T estaria fadado a pertencer a ela "até que o céu chovesse estrelas", como ele havia prometido naquela quarta-feira nublada há alguns anos. desde então, ela passou a detestar todas as quartas-feiras por parecerem sempre nubladas e suscetíveis a bancadas de chuva.

ela só não tinha acesso à cabeça dele.
não que isso fosse importante, não que isso demonstrasse insegurança por parte dela.
não gostava que mexessem nas suas coisas desde criança, era de gênio forte.
não queria que bagunçassem, ninguém tinha o direito de importunar sua vida.

era preciso encontrar uma saída de si mesma antes que fosse tarde, antes que as lobas loucas uivassem à lua. pensou no feijão que cozinharia na manhã seguinte e pediu a deus que deixasse vazar a pressão daquela loucura, senão seus ossos continuariam estalando até quebrarem por completo.

não quebrariam de uma só vez, ainda era cedo pra isso.
vamos começar por partes: afogou-se na imensidão vaga do seu próprio vazio e ao chegar no fundo, deu de cara com T colhendo algas marinhas.

talvez devesse contatar algum programa de televisão vespertino, para que os três fossem entrevistados por uma apresentadora popularmente imparcial, diante de um auditório cheio de solteironas classe média. lá, choraria suas mágoas enquanto a outra refletiria acerca do casamento acabado, sob o olhar peidoso das solteironas classe média, sob o orgulho da virilidade de T, sob a constante interrupção dos patrocinadores, sob o olhar soberano do poderoso e excelso deus. "deus meu, deus meu, por que me abandonaste?", rogaria a esposa em espírito de oração.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

sobre projeções delicadas num encontro cretino a ferro & fogo & r-22 (ou "o cúmulo da falta de coincidência no barro vermelho") - PARTE III

o ano era regido por iansã, senhora absoluta das tempestades elétricas, e ela levava fé nos bons ventos que soprariam em seu caminho. o horóscopo chinês, os búzios de angola, o tarô cigano, os exus de umbada, os oráculos online, os biscoitos da sorte. enfim... no entanto, a chuva começava a apertar.

quais eram as intenções de L? qual motivação o levaria a crer na possibilidade de afeto para com ela? por que os barraqueiros da rua mercúrio insistiam em empurrar cerveja quente pros foliões? L já havia tomado umas e outras, cheirado duas ou três carreiras de pó, flertado com discrição e correspondido com queima de fogos, de maneira que sentia-se obrigado a recusar as investidas por pura educação. corpos em combustão é fenônemo típico do carnaval, porém, não há nada que banho gelado não cure...

ela carregava as insígnias das pegações carnavalescas com orgulho: o sabor do boquete que perdurava sem amargor na língua, a paranoia adormecida pelos tranquilizantes, o beijo do princípe encantado nos róseos lábios do cu, o sangue que corria dentro do corpo escondendo alguma doença venérea talvez - e tudo isso ela recebia com ar de leve alegria, como quem aguarda o nascimento de um filho inesperado e está prestes a padecer num paraíso perdido.

enquanto isso, L estava a caminho. e ela o aguardava pacientemente.

terça-feira, 3 de maio de 2011

sobre projeções delicadas num encontro cretino a ferro & fogo & r-22 (ou "o cúmulo da falta de coincidência no barro vermelho") - PARTE II

"- alô?
- alô honey?
- oi, tubo bem?
- tudo bem, amor?
- tudo bem!
- tudo bem mesmo?
- tudo bem mesmo. e com você?
- tudo bem.
- ai, que bom!
- bem... tudo bem mais ou menos...
- então não está tudo bem?
- tudo bem mas eu nem sei se deveria dizer "tudo bem".
- como assim? 'tá tudo bem ou não 'tá tudo bem?
- é que rolou uns problema aí, sabe?
- hã?
- foi que eu tive que pegar uma arma aí e tal...
- como assim? você matou alguém, é isso?
- não, é que o irmão da daqui pegou a gente nuns desintendimento, sabe?
- não, não sei não. 'cê 'tá ligando do número da daí, né?
- tô não, tô em austin.
- não perguntei onde 'cê tá, perguntei se o número era da daí.
- não.
- é-sim-porque-eu-gravei-o-número-daquela-última-vez-qui-'cê-ligou-do-meu-aparelho.
- eu apago depois, tem problema não.
- então tá. e essa loucura de arma, d'aonde surgiu?
- como eu disse... o cara chegou aí e quis bancar "o foda", me ameaçando. daí eu fui lá e peguei a arma!
- você matou o cara ou não?
- não, matei não. é que eu 'tô precisando de um lugar pra ficar uns tempo...
- já procurou a casa que a gente tinha combinado?
- 'cê sabe que não deu, né?!
- não tô gostando nada disso. arma, ameaça, lugar pra ficar, morte...
- não houve morte, já te falei. ninguém 'tá falando de morte. você é que 'tá falando de morte.
- o problema é que no final tudo é motivo pra morte.
- é verdade, tudo é motivo pra morte no final.
- 'cê entendeu o que eu quis dizer?
- (silêncio)
- eu mereço.
- merece o quê, amor?
- deixa pra lá.
(silêncio)
- amor?
- fala.
- tô precisando de uma grana também, aliás, peguei uma grana emprestada com a tua tia...
- cê o quê? esquece, tá? e aí?
- tô precisando de uns duzen... será que qui 'cê tem du...
- hunf! só-posso-a-metade.
- tudo bem, amor. sem problema, depois a gente vê isso.
- e você? 'tá fazendo o quê?
- 'tô meio ocupada com umas coisa aqui...
- quer que eu te ligue depois?
- acho melhor. se importa?
- claro que não! tudo bem então, amor.
- tudo bem. tchau.
- um beijo, amor"

a quarta-feira de cinzas do último carnaval foi o dia mais frio do verão. no sambódromo, as penas, as cores, as câmeras, as fantasias, os orixás, os astronautas, os devaneios, os corpos, os gritos - tudo não passava de um monte cinzas. feliz ano novo, vida! au-revoir verão! na quarta-feira de cinzas mais fria do verão, em meio à multidão de máscaras, na desordem da inversão bacanalizante, eis que surge a aparição: olhos-verdes-mares, coroa-favos-mel, um par de asas, jeans e havaianas brancas. ela de fato cria na existência de anjos. assim como no espírito santo, nos espíritos zombeteiros, nos vampiros, nos lobisomens, no zumbis, alienígenas, redes sociais, propagandas de creme bucal, livros de auto-ajuda, sindícatos, dietas californianas e, acima de tudo, ela acreditava nos estados unidos. o sonho dela era ter nascido nos estados unidos. new york, dizia ela como quem suspira o nome de um amor incorrespondível. hollywood e a programação televisiva do fim de semana haviam formado o seu cárater. eis aí, os veículos propagadores das lições mais importantes que ela aprendera na vida. deus abençõe a américa! continente nem tão vizinho! mas a marca dos estados unidos. a tal marca dos estados unidos... era uma loucura total: banda de rock com 666 tatuado na testa, world trade center em chamas na nota de vinte dólares dobrada, a pirâmide illuminati com o olhinho na nota de um dólar, a bolsa do teletubbie com símbolo gay na cabeça. os estados unidos lhe parecia um país bastante estranho, apesar de toda parafernália tecnológica criada pelo país e divulgado pelos principais meios de comunicação.

carregava a marca indelével do 11/9 no coração."como pode haver tanta ruindade no coração das pessoas?" - sempre que alguém lhe feria deliberadamente, remorava a cobertura televisiva do 11/9 "só pra não esquecer da maldade intrínseca à condição humana", como dizia o repórter responsável pela cobertura da tragédia. ela não deveria ter a mínima noção do que "maldade intrínseca à condição humana" pudesse significar. quer dizer, voltemos a quarta-feira de cinza mais fria do verão. ela não sabia exatamente qual era a estação daquela quarta-feira de cinzas mais fria, aliás, "verão e outono parece tudo a mesma coisa", filosofava. mas as condições metereológicas não eram do seu interesse. o que lhe importava na verdade naquela noite era a aparição de L. que se danassem os filmes, as máscaras e os bêbados - tudo que lhe importava era a aparição do seu L. ali, no meio da chuva rala, finíssima, cada gota como um minúsculo cristal de neve tintilando das curvas ao dorso de L. de repente, no peito dela, o coração frio voltava a bater, mas não tinha muita certeza. talvez, não tinha certeza de nada...

domingo, 17 de abril de 2011

sobre projeções delicadas num encontro cretino a ferro & fogo & r-22 (ou "o cúmulo da falta de coincidência no barro vermelho") - PARTE I

A DANÇA DO BARRO VERMELHO

o táxi chegou no barro vermelho lá pelas onze e pouca. a cena da casa de T ainda lhe martelava a cabeça. a cena de T e L acompanhados de suas respectivas esposas. podia-se dizer no mínimo que aquela seria a ocasião perfeita para o irônico encontro das contradições. por que não celebrar a aberração da vida naquela estranha ocasião cheia de cretinos? por que não dançar a dança? que asim fosse. e assim ela conduzia: dois pra lá dois pra cá, dois pra lá dois pra cá.

o enredo inicia com voz barítono-oracular, no momento em que o ex lhe conjurara uma praga terrível: teu destino é ser outra".

foi mais ou menos assim:

T, o soldador, ligou numa tarde de sábado quase ensolarada, depois de um expediente de trabalho chispante:

- alô, minha rainha! (cantando) "como vai você? eu preciso saber da..."
- (meio sem paciência) pára de enrolação T e diz logo o quê qui é...
- como assim "pára de enrolação T"? sabia que já fez dois meses desda sua maluquice e eu 'tô aqui morrendo de saudade?
- (risos) huh... e?
- poxa... passa aqui.

BALL AND CHAIN

vale lembrar que a má-sina dos cinco era conduzida a passos de formiga por ela, que além de muita culpa no cartório, tinha também o crédito comprometido nas respeitáveis intituições financeiras que anunciavam na TV.

7 COM DISTINÇÃO

ela sentia correr pela veia da vida uma tremenda sensação nelson-rodriguiana de existência absurda, caminhando na corda bamba do destino entre o rídiculo e a ficção.

é que havia um medo de sonhar em morte a sua vida. verdadeira desfronteirização da fantasia com o real. e era tudo faz de conta, tudo de mentirinha, tudo a partir do barro vermelho em diante.

PLANEJAMENTO MENSAL

as esposas, apesar das repetitivas e enfadonhas obrigações matrimoniais, pareciam satisfeitas com o razoável prazo de pagamento oferecido pelas revendedoras de cosméticos (cinco parcelas mensais) e o desempenho sexual dos seus respectivos parceiros (oito orgasmos por semana).

PATROCÍNIO

ela anuncia: nenhum creme à base de colágeno ou orgasmo foi comprometido ou prejudicado até esta linha.

PRIMEIRA IMPRESSÃO

talvez ela fosse a grande vagabunda, imperatriz das piranhas, a de ombros trejeitados, risadas pomba-gíricas, unhas em vermelho satanás, brincos pneus de fórmula truck, cinco doses de cuba libre sem gelo e cigarro queimando entre os dedos. talvez ela tivesse perdido suas asas e fosse obrigada a caminhar num chão duro e frio. os pássaros não plantavam mas tinham de comer, as flores do campo não teciam mas se vestiam com as mais lindas pétalas. ela contava com alguma intervenção divina.

talvez as estradas fossem escuras e sinuosas, cercadas por árvores longas de galhos secos - exatamente como ocorre nos sonhos de estradas escuras e sinuosas cercadas por árvores longas de galhos secos.

talvez, talvez, talvez... talvez não.

T

fazia um calor infernal. daria até pra fritar um ovo na calçada, se acaso a rua fosse asfaltada. na tupperware de T, bordas queimadas de ovo frito se confundiam com cascas de feijão, alguns grãos de arroz e maionese com batatas. no final do dia tudo era facilmente digerível - a não ser pela sensação gordurosa por dentro. 

CAMA FORRADA COM LENÇOL DE FOGO

T fora o maior sonho na vida dela. como nos sonhos, às vezes, chegava a dar um friozim na barriga. a solda de T ardia em brasa no ferro, fundindo os espaços incompletos marcados pela imperfeição da vida. ele invadia e desnudava o olhar "na marra", incinerando retinas, alastrando fogo em pontos cegos, vermelhecendo a visão, consumando-a em cinzas. T não brincava em serviço. apesar dos atributos físicos não contribuirem muito, ela ia além da superfície daquilo que representava T. se ela pudesse revirá-lo certamente encontraria ali uma profundidade estarrecedora, mistérios inverbalizáveis, segredos que palavra nenhuma poderia contar. T, o impronúnciável. ela fora amaldiçoada com a cegueira dos deuses e desde então tornou-se clarividente. é a única explicação.

CHEIRO DE CAFÉ

porém, um dia ela acordou, ou pelo menos supôs que tivesse acordado. o cheiro de café que prenunciava as manhãs desde a infância e costumeiramente lhe causava sono, anunciava excitantes expectativas de mais um velho novo dia. desde então, todas as vezes que sentia aroma de café, experimentava a sensação matutina emergida do pires da memória, tragado à sopro para não querimar os lábios, enegrecendo o paladar amargo da língua.

MICRO-MEMÓRIAS DE TAMARINDO

no momento do convite em forma de chamada telefônica, ela chupava bala de tamarindo, enquanto a esposa de T encontrava-se adormecida. a leveza do sono da esposa de T era embalado por sonhos tranquilos, feitos do azedume tranquilizante do maracujá.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

cyberchá-fé

jabuticabeira sentada na eira da beira
espaço conquistado & engolido pelo buraco negro
vagão feminino de bolino lésbico no metrô
entardecer de sacos-asas de anjo sem cor
bueiros explodindo no ar
cigarro pra respirar
carinho sem amor, sim
sexo sem tesão, não
propaganda telepática terrorista
pornografia & mãos de mãos unidas
mantenha distância online
viver a vida em offline
correio plasmador de entregas
satélites hackeando ideias
tudo made in china
ilês-eletrônicos
siga em frente
palavrão proparoxítona
coca-cola em capsúla
clones à venda no shopping center mais próximo
alienígenas sem-teto esmolando centavos
favelização universalizante
telecatch de allah na aljazeera
don't ask don't tell na encolha
sapato apertado dando dor de cabeça

"pra não dizer que não falei das flores fields-forever"

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

desaportamentos

"oi. fui redirecionado para o mesmíssimo lugar pela quin-quá-quá-gésima vez - e agora qualé da próxima etapa? quê que vai rolar? será que vou ter que desenhar pra ser mais claro ou obscurecer. cê fala minha língua? cê escuta pelo menos? por que não colocam aqui uma placa ad-infinitum ou eterno-ciclo-de-lugar-nenhum pra poupar tempo dos out..."

"não sei. acho que o problema da primeira pessoa é exatamente a inexistência de uma primeira pessoa. o eu contempo-urânio tornou-se um ponto de referência, vício de linguagem processado, metafóra mal compreendida. ou não sei o quê. o eu não passa de um eles no singular..."

"e é tudo culpa da explosão de informações que veio com o advento da internet. masturbação imagética noir, máscara feiosa libero-facista, propaganda hipnótica invisível, playground de coorporate-pedofilia..."

"uma noite, no único restaurante sci-fi 24-h de uma cidade distante e remota, sentado ao lado do piano bar um grupo de amigos conversa à mesa: por quê não organizamos uma passeata bareback e botamos pra fuder, disse o que estava sentado de costa pra parede de vidro. eu não quero ser alvo de nenhum movimento neo-petencostal-facista, nem de políticos there-is-no- business-like-show-business-líderes-absoluto-de-audiência, menos ainda do telejornalismo das 19:45, disse o que estava de frente ao piano bar. pelo menos a gente vai poder contar com a galera da igreja católica, disse o menos interessado. no momento que a pizza gigante de rúcula com tomato seco havia chegado eles esqueceram do assunto e prefiriram tomar coca-cola..."

"a nano-tecnologia é uma cópia de mal gosto dos seriados japoneses..."

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

a diferença entre a mulher e o viado

é o seguinte. o assunto é bem delicado. sim, se trata de um assunto bastante delicado e polêmico. a minha distinção que será feita entre a mulher e o viado pode parecer meio redudante, queridos ouvintes, o que não quer dizer portanto que não seja uma contribuição no mínimo interessante. e pode até quem sabe fomentar novas discussões a respeito da referida diferenciação.

bem, vamos lá. é o seguinte. é sabido de todos o dito popular "quem gosta de piroca é viado, mulher gosta é de dinheiro". gostaria antes de mais nada confessar a minha simpatia e admiração pelos militantes dos direitos iguais da minoria. essa minoria que luta pelo bem comum, essas andorinhas que fazem o verão- ah, e como fazem, queridos ouvintes. pois na verdade somos todos queridos, não é? bem. agora sem querer extender muito. bem eu não podia deixar de mencionar o meu grande apreço pelos meus queridos ouvintes transgêneros. queria também sublinhar o meu enorme carinho por essa figura que é um manifestação humana incrível, que cabe perfeitamente e "literalmente" na sua própria pele, esse ser humano lindo que é buck angel. se buck angel estiver ouvindo: beijo no coração. buck angel é certamente um ícone do bem-estar-consigo-mesmo e é por isso que eu amo demais esta pessoa do bem que é buck angel. deixa eu explicar queridos ouvintes. eu queria convidá-los a participar da nossa linha de bate-papo online. lá queridos ouvintes, vocês vão poder enviar as suas opinões, as suas perguntas, denúncias, enfim... tudo. o nosso debate de hoje é sobre a diferença entre mulher e o viado.

bem queridos ouvintes...

terça-feira, 24 de agosto de 2010

budismo microcósmico

andava cansado e devagar naqueles...



atendeu a ligação da companhia telefônica "referente ao atraso que constava cadastrado no sistema desde 12 de agosto". a operadora queria saber "se a conta podia ser paga amanhã". respondeu que "a conta podia ser paga até sexta-feira". "ok, senhor!", ela preencheu a pausa. "é importante que a conta seja paga até sexta-feira, até mesmo pra evitar os juros na fatura seguinte, ou até mesmo o corte da própria linha telefônica - ok, senhor?". "ok", repetiu. por um instante pensou em mandar o experimento telegravação versão 4.3 tomar no olho do seu cu eletrônico. mas andava meio fatigado naqueles.... mas estava ok.


foram dias de tosse seca (e foram também os dias mais quentes daquele inverno, espécie de prenúncio da primavera), dias de pastilha antiácido framboesa, ultimate fight no tatame do espelho. o cansaço no entanto vinha dantes e fazia tanto tempo e, afinal, era tão inútil que logo tornou-se esquecimento.

as faltas de coincidência no cotidiano, as invísiveis diferenças no parecido, a sinfonia do ego, a dor de qualquer coisa desconhecida, as pílulas que antecipavam a doença, as fantásticas alegorias da mentira, a desencantada palidez da verdade, os correios eletrônicos lidos e não-respondidos e apagados, os esbarrões propositais nas calçadas cheias, os ataques telepáticos da publicidade, tragédias jornalísticas de torcer o jornal e sangrar, as premeditadas urgências sentimentais (todas inadiáveis), os jejuns involuntários, o amor a um clique da tela na palma da mão, a vontade de impressionar da maneira mais adequada, as roupas passadas de trás pra frente vestidas ao contrário, o mercado da salvação na tv, a falta de etiqueta das etiquetas, a poesia pálida e disritmada da vida, as tomadas penetrando a eletrecidade, o intercâmbio dos pesadelos para a vígilia, a esculhambação dos romances contemporâneos, etc.


reconheceram-no logo pelo que ele não era - o que era uma grande esculhambação. mas e daí?

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

quarta-feira, 9 de junho de 2010

(esta noite)

(esta noite)
frio brabo
soprando
adentrando a janela

invadindo

o quarto
ao quadrado
e o escambau

(esta noite)
a canção no rádio
toca

denunciando um amor
renunciado
cheio de dor
cheio de dar



e eu sendo a
-penas mais um
(esta noite)

quero ser
só+um

mas não

(esta noite)

terça-feira, 4 de maio de 2010

incompletude

toda vez que ele saía, sua ausência era preenchida pela impossibilidade do retorno. era como se cada atitude tomada por ele projetasse um feixe de luz difusa contra a realidade perplexa dos olhos torvelinos dela. olhos - satélites artificiais do pensamento -, pra quê te quero?
o que ela queria mesmo era se adornar de laços vermelhos - se perder no sumidouro do minúsculo adesivo dourado, ter a sentatez lacrada na abertura de um envelope subscrito "com amor", para finalmente morrer afogada no frescor de mil botões de rosas pálidas.
antes ele atendia aos chamados de querido, embora tivesse um nome próprio. hoje ele é alguma coisa imanentemente designável que, apesar de fazer algum sentido, carece de significado.
ele não passou de um equívoco que ela havia gerado no âmago de sua incompletude crônica.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

o evangelho segundo sebastião m.

capítulo I:

1 - conhecereis a verdade
e a verdade vos aprisionará.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

foi-se

ex-um-ar
um amor
que um dia foi ar
que um dia foi fôlego
(sopro último):
e foi-se.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

chuva


é que chove sempre por aqui. e eu vivo aguardando, esperando vivo pela colheita em cultivo. a chuva que é feita no presente é a mesma sempre? é a mesma em assunção, curitiba, londres? tanto faz. e pensar que a sensação de banhar-se, adentrando nela, na chuva - já estiou há muito. mas chove sempre por aqui. relampejou bastante no finzinho daquela tarde, lembra? chuva que é chuva começa ralinha, ninguém dá nada por ela - depois vira tempestade e trovão, pois nunca se espera muita da chuva. é visita materializada na porta da frente quando se está prestes a sair: surpresa. e de repente chuveu sem guarda-chuva. soube de alguém que chuvia toda vez que lhe gritavam. chuvia cântaros, e logo em seguida seguia correndo em enxurrada. foi-se. chuva é realmente um perigo. e eu vivo aguardando, esperando vivo, enquanto a foice recolhe a colheita que em cultivo crescia.

sexta-feira, 12 de março de 2010

tristeza alegórica


gerânio ornamental

de delicadas pétalas roxas

enrubesço contemplativo

ao testemunhar

tuas lágrimas coxas


é que jamais me dei conta

de tua natureza soturna

desta tristeza repentina

enovelada em tuas

raízes secas e defuntas


tu que te espreguiçavas todas as manhãs ao sol

antes mesmo de raiar o meu amargo amanhecer

irradiavas tamanha singeleza, gerânio!

que eu entorpecido voltava a adormecer.

segunda-feira, 8 de março de 2010

por favor, exploda: exploda de raiva

depois me ensina a tecer sonhos

falar a língua das begônias

entender que caminhar

é o único jeito de
in-(s)isto em existir de manhã por pura maldade
- eu sei que não ex-isto.

terça-feira, 2 de março de 2010

trans-tornado

quando havia cigarros, eu pensei em escrever sobre um certo filho da puta que havia roubado o golden label da minha dispensa alcoólica - mas passou. é que eu esqueci do maço de cigarro na cozinha. só um minuto, sim? agora sim: pelo menos deixaram uma garrafa de espumante de segunda, e apesar do paladar esquisito, eu a bebi com dignidade de veuve clicquot. qualquer dia eu acabo ateando fogo em mim mesmo. cigarros acessos, esquecidos & espalhados queimam em repouso dentro de cinzeiros milenares. o espumante explode garganta abaixo em milhares de bolhas cor de diamante, refrescando a ilusão de ficar puto à toa - talvez o ladrão tivesse um bom motivo. a sensação é um terço da dor de se ter a mãe estuprada, sabe? é por aí: vontade de dar uma mijada sem canto escuro apropriado, mastigar alho no café da manhã... meu corpo agora expira alho e eu todo sou reconhecido como aroma peculiar. o que é bastante perigoso hoje em dia, pois aromas peculiares quase sempre causam câncer, impotência sexual ou derrame. eu louvo a queima do cigarro no cinzeiro com gritos de aleluia, como fazem os negros do coral gospel. grito de peleja contra o senhor - ai de mim, pai abrãao, pois hei de lutar contra os anjos a favor de minha benção. ladrão filho da puta, fodeu com a minha cabeça!

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

sempre houveram dois mundos: o lado daqui e o lado de lá.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

os ossos que rangem feito dentes enraivecidos ainda não quebraram de vez. é preciso quebrar o maxilar. é preciso não quebrar a cuca. afogar-se na imensidão vaga do vazio, chegar até o fundo e colher algas marinhas. tudo não passa de um grande jogo - é preciso correr o risco sempre. a dúvida que não é boa, que não é má, é na verdade respiração da alma. não tenha pressa nenhuma. porém, antes de tudo, deve-se fechar os olhos e não ver nada: é preciso ficar cego pra entender a sensação de ter os pés refrescados à beira da praia. meu vício é minha vaidade. eu inalo meu orgulho para depois assoprá-lo em espiral - e ele se defaz desaparendo no ar.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

o silêncio do jardim crepuscular

começou no jardim com a criação de toda uma humanidade. o dia era o sétimo e o jardim suspenso estava verde e gracioso. o sol brilhava intenso feito uma laranja flamejante enquanto pássaros de aço estrondosos rasgavam o céu.

a inflorescência do jasmineiro trêmulo gemeu baixinho.

nem sequer uma nuvem prenunciava chuva, bica nenhuma pingava uma gota. na boca, a língua estalava seca e áspera e o calor mantinha-se estático: "bom-dia sol!" de olheiras insones. sol, astro maior, demasiado real, corola de girassol suspensa em chamas. o sol gerava partículas sanilizadas sobre as pálpebras cegando a visão, sublinhando olheiras. o sol requeria do homem grossas-parassois-sobrancelhas. o sol provocava devaneios de braços entrelaçados à quietude do jardim suspenso.

o bambuzal do canteiro acordara em alvoroço, assustado, e tamanho descontentamento amarrou-lhe logo a cara. parecia de qualquer modo avesso a surpresas - exceto as boas, é claro. clamava "pai abraão, pai abraão" enquando rogava por água. as helicônias, musas enraizadas em solo ácido, eram contraltos delicadas que carregavam gravíssimas feridas de amor. o canto das helicônias era baixinho, espécie de sussurro jururu.

as onze horas eram continentalmente pontuais e foram as que mais floriram em primaveras passadas. durante as férias do jardim de infância, após o café da manhã, eu as contemplava desabrochar com olhos imaculados de inocência. minha relação com as onze horas me remete aos dias em que até a pequenez das novidades eram mágicas.

as orquídeas sempre me aparentaram uma beleza de plástico, falsa alegria incontestável. prefiro não falar das orquídeas: me aborrecem por serem facilmente impressionáveis. as risonhas samambaiais são tias solteironas dividindo em harmonia o mesmo apartamento. apesar do ar implacável as bromélias são monjas da sombra que passam dias inteiros meditando, buscando a anima da essência.

os lírios, por sua vez, comeram o pão que o diabo amassou: qualquer brisa mal intencionada acaba em despetalação aguda. a passagem pelo mercado de flores enfraqueceu-lhes a autoestima, por isso é preciso ter um pouco mais de paciência com os traumas dos pobrezinhos. as roseiras choranas soluçaram a tarde inteira: diziam não suportar a dor do espinho na carne - então eu as reguei com abundância pra não perder a esperança. a dor das roseiras sangra.

então veio o pôr-do-sol salpicando traços róseos na escuridão que engolia tudo.

e eu anoiteci com medo de mim mesmo.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

buraquinhos

era uma vez a cuequinha rasgada. a cuequinha nunca foi lá grande coisa, até pode-se dizer que durou pouco mais que o esperado, mas a vida é repleta de surpresas minúsculas e a cuequinha, cujo futuro anterior ao indistinto desfecho seria evidentemente tornar-se pano para polir movéis, fundiu-se em um corpo confuso em um. as outras, brancas de algodão, encardiam de inveja da cuequinha rasgada. um corpo, por mais confuso que fosse, sempre seria mais confortável que uma gaveta escura cheia de baratas mortas fedendo a naftalina. no entanto, um corpo confuso amava tanto a cuequinha que chegava a desgastá-la, enchendo-a de buraquinhos por todas as partes. o tempo ia desfiando cada vez mais a cuequinha, até que um dia a pobrezinha não aguentou e rompeu-se em trapos. no dia seguinte, lia-se nas manchetes de jornais em letras garrafais:"corpo seminu é encontrado com região pélvica perfurada em banheira de sangue".

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

sorte

sorte sua, não? sorte sua a lua brilhar na ponta do seu dedo, na altura do prédio vizinho. um pedaço do céu estrelado reservado a sua contemplação. sorte sua a grana pra bancar uma boa foda, o dom pérignon, uvas sem semente - sorte sua não ter um amor, pois assim sendo, poupam-se as boas desculpas, sua arquitetura de belas mentiras. sorte sua o mundo na palma da mão, só que o mundo não funciona sem bateria. sorte sua a vida armazenada nos infinitos gigabytes do tempo. sorte suada, não? nada vem fácil. sorte sua a testa e dá dor de cabeça. sorte sua ter cortado o cordão umbilical, só pra sentir a agradável sensação da queda sem amparo, sem braços. sorte sua as viagens à europa três vezes ao ano. o avião não explodiu nenhuma vez, exatamente como você não esperava. sorte sua o carro com equipamento antipoluente no trânsito de segunda-feira. sua sorte a consciência tranquila no plano de saúde, no seguro residencial, no sistema de vigilância, no seguro de vida e nas pílulas tranquilizantes. sorte sua a meditação esfriar cabeça, ao invés da bala.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

acabou,


eu que não guardo emoção nenhuma em papel, meus sonhos suspensos de pipa devaneiam em misteriosas redes elétricas, eu que não tenho compromisso algum com a verdade sugerida, eu que tenho frases geniais, dignas de telenovelas, como por exemplo: isaura e eu nos parecemos tanto que não podemos ficar juntos, por isso o nosso amor não deu certo - eu que falo afetado e cheio de pausas, odeio discurso sentimentalista barato em alto e bom tom, eu disperso de humanidade & primeira pessoa do plural, eu que não sou mulher contra a ida, eu que dancei john travolta nos tempos da brilhantina, eu que nem mulher sou, eu que em janeiro morro de medo de mosquito e enchente, ando noite a fora, nua pela rua, eu que, acima de tudo, zelo pela lei do silêncio em cada palavra, eu que lembro & esqueço e não sei se lembrei e esqueci ao certo, eu que sequer abro a boca pra dizer coisa que preste, eu que fujo da vida me refugiando na sombra da palavra, eu que só leio livro cheio de vazio, eu que imagino o quão incrível seria o rumo que as coisas levariam se ao menos eu lembrasse daquilo que fora incrível há alguns segundos, minutos, dias contados de frente pra trás, eu que alivio a dor à base de analgésicos & antiácidos, eu curtocircuito, paranoico hipocondríaco, eu, curto ser assim, pequeno demais, feito formiguinha carregando folha nas costas, eu que nem sei se formiga tem costas, eu pura culpa judaico-cristã, eu queima de fogos em dia de chuva - (eu? google.) -, eu que só sei que nada sei que nada sei que nada sei, eu que sempre quis aprender a falar japonês e amo asas de beija-flor porque nunca as vi - daí eu amá-las tanto assim -, eu que cada vez mais sou roseira de vasinho terracota, eu que odeio eufemismo e superlativo, eu que tenho vaguíssimas impressões acerca de tudo, eu que sempre termino tudo lá pelo começo, eu que acredito no início feito fim mais breve,
eu acabei, acabou, acabamos

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

pensamento do dia:

morro alegando ser a maior injustiça da vida o fato dela não ter vindo com manual. deveria existir algum telefone, e-mail ou coisa parecida, do qual fosse possível contatar a assistência técnica e solicitar manutenção do equipamento. tenho superado o inferno de estar eternamente em hold pela grande operadora do universo. tendo que escutar musiquinhas irritantes enquanto observo as unhas roídas crescerem outra vez, aguardando o número do protocolo de reclamação, morendo de esperanças de ser atendido, ansioso pelo reparo.

domingo, 1 de novembro de 2009

espuma

enquanto ele se banha
eu o vejo
através
da porta
entreaberta
do banheiro

os olhos
projetam
o clique da memória

fotografia precisa

dos cabelos molhados
do corpo sem pelo
do rosto escondido
atrás de um par de palmas
brancas
(dedos roxos
d'água)

da espuma que desliza
pelas
bordas
do dorso
até a rola
que balança
solta
leve
feito bailarina louca

ele não vale uma memória
não passa de uma porta entreaberta

domingo, 13 de setembro de 2009

cordialidade

o sorriso de dentes embranquecidos
quase novos
nunca esteve tão amarelecido
quase anêmico de anima
mecanismo automatizado de cordialidade
crachá de babaca.

DISTÂNCIA

a cama era grande demais
para aproximar os dois.

poema fedorento

meto o dedo no cu e cheiro:
- fede a chetoos!

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

último gole

"it took me a long time to find
the most interesting person to
drink with: myself..."
(Charles Bukowski)

o copo
que não transborda,
já se foi
a última saideira.

em breve as portas baixarão,
o balcão seco
federá a cinza & cerveja.

cadeiras de pernas p'ro alto
ocuparão todas as mesas
vazias.

o silêncio bêbado
amolará os quatro cantos do boteco
cheio
de nada.

reverberando
o barulho da bica
solitária que

pinga.
pinga.
pinga.
tristíssima.

banheiro sem papel
vomitando tédio
bombardeado
de naftalina.

ninguém se importa em dar descarga.

enquanto eu desço
ralo adentro
sem ter dado
meu último gole.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Quando tudo que resta no fim da noite é fúria & silêncio, não há nada melhor do que acender um cigarro e se perder na fumaça que some. É foda entender como vinte minutos de conversa bastam pra estragar um dia inteiro. Mas não faz mal. Nunca acreditei em felicidade como estado imutável ou condição permanente de regozijo - pois felicidade e dor partilham da mesma essência. Assim como esterco é merda, a gestação da dor é sempre sucedida pelo nascimento do alívio. Enquanto a vida é uma puta cheia de filhos.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

oh, mundo! vasto mundo...

se eu me chamasse Raimundo

seria apenas uma rima?

ou um motoboy

nordestino

da Rocinha?

quarta-feira, 27 de maio de 2009

pernas de joão do pulo

a ladeira do morro da pedreira se encontrava mais lamacenta que de costume, objetos deslizavam como confetes multicolores adornando a enxurrada de barro laranja carregada de papéis, garrafas plásticas e sacos de supermercados, que terminavam por desaguar no asfalto. aquele outono de data incerta fora precedido por umas águas de março que não fechariam o verão e as estações sofreram uma estranha simbiose resultando em dias secos de noites chuvosas. Na infância nunca tivera problemas para subir o morro correndo, já que acreditava que suas pernas longas, vez e outra, manifestavam feitos mágicos, como da vez em que foi perseguido pelo dobbermann do dono do morro e saltara com pernas de joão do pulo o muro da pequena igreja pentecostal, na rua monte das oliveiras, a fim de se livrar no mínimo das mordazes mordidas caninas. não se importava com machucados e arranhões, pois embora não compreendesse o processo de cicatrização acreditara nas palavras da mãe que dizia: – “meu filho, o tempo a tudo cura”. e as memórias daqueles dias eram cristalizadas involuntariamente, tatuadas de preto na pele em carne viva, se tornando imunes às brumas elétricas do tempo. às vezes as advertências proferidas pelos lábios da mãe soavam pouco inteligíveis, eram ouvidas sem serem escutadas, e o menino bêbado de tanta água, deslizava as extremidades do guarda-chuva empenado, que rodopiava entre a palma das mãos em forma de prece, apressando o passo desengonçado que afundava, melecando a calça da escola, na ânsia de chegar em casa somente para apreciar a sinfonia que caía sobre o telhado.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

poemóides


a palavra muda:
que titubeia o coração
urro inexprimível
de símbolos reticentes

perecíveis
impressas e inflamáveis
contagiosamente empoeiradas
cátedra dos cupins

sacro transgressoras
do Eu Sou
retórica de satã

projeção cega
liquefeita nos olhos
em cataratas

instante opaco
capturado e cristalizado
a dez passos da posteridade
a um passo do esquecimento

tentação indecorosa
broxantemente decadente
piranha? piranha!
dá pra quem quer tê-la

mal entoadas
melodramaticamente nasais
concluídas, inacabadas e oclusivas

átonas atônitas
grafadas em letras garrafais
gafe ágrafa

a palavra que emudece
muda

***

sorry, narciso!
pois ai de ti
quando o tempo der contigo

a esplendidez do teu passado de glórias
não passará de esvanecidas memórias

dias cálidos, loucamente desenfreados
emurchecerão o róseo de teus lábios despetalados

pois o tempo – vil algoz – levará de ti, consigo,
da melodia da voz até os dentes do sorriso

teus olhos castanhos tornar-se-ão vermelhos
esvanecendo teu reflexo deslustrado do espelho

então o rejúbilo de teus dias findará
e teu corpo, membro por membro, adoecerá

sentirás no cerne
a horripilante putrefação da juventude

enquanto os vermes
aguardarão do teu banquete com inquietude!

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

desapropriação

os olhos esbugalharam atônitos ao perceberem as maledicências que uma boca de caráter duvidoso cochichava aos ouvidos atentos. os cabelos denotavam perplexidade, ouriçando involuntariamente uma nuca despudorada; enquanto mãos espalmadas, irrequietas, titubeavam com as pontas dos dedos um par de joelhos indiferentes. o pescoço taxativo movia-se de um lado pro outro, explicitando total descontentamento. narinas curiosas logo se meteram onde não deviam, afirmando que algo não cheirava bem. os pés sequer moveram um passo de tanta indignação. dentes rancorosos rangiam amarelecidos de raiva. bochechas rosas, repletas de botões de cravos, enrubesciam tímidas. axilas tempestuosas suavam litros sobre uma tez anêmica com cara de defunta. mamilos enrijecidos deram uma de joão-sem-braço. o coração cardíaco tinha ataques claustrofóbicos – por isso vivia a base de medicamentos – dentro de um dorso apertado e escuro. a cintura não tinha nada a declarar além da própria inocência. é sabido que até as virilhas foram coniventes com o esquema. pernas trêmulas entraram em estado de choque ao terem conhecimento da tomada da bunda. a princípio o pau ficou puto, mas depois teve de ceder.
tarde demais: o buraco do cu havia sabotado o corpo inteiro.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

à espera do eng. carmona




preciso sair. sentir o sol que cora a morena e depois seca tudo: flor, espinho e primavera. o mormaço de fora, convidativo, bate à porta e pede um copo d’água (chapéu apertado contra o peito, estendendo a cálida e humilde mão): - faz o favor? sair se torna preciso. sensação de ficar entre a cruz e o diabo, quero dizer... ar-condicionado. o tempo congelado do lado de dentro, o tempo com motor envenenado do lado de fora. desassossego de abalos sísmicos que assombra a cada meia hora. suo entre os braços, gota a gota, contrariando às leis do antitranspirante. então penso: logo existo (menos mal). perambulo de um lado pro outro, perco coisas, tornando o calor mais pavoroso – pobre de mim sem protetor solar. finalmente acendo um cigarro, sento e relaxo: logo fico (uff! menos mal).



Rio, 9/12/08.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

diário de um pecador

Rio 02/03/94 (3:05 AM)Peço ao Senhor todos os dias em minhas preces para não me deixar cair em tentação, mas o espinho parece penetrar na carne cada vez mais fundo. Perdi dez quilos desde que entrei em jejum e sinto que isso contribui apenas para aumentar o tamanho do deserto que se fez minha alma - "Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?!" Essa tarde, depois da escola dominical, fiquei encarregado dos meninos do grupo de louvor da igreja, os Cordeiros de Cristo. Na fazenda Lira de Davi, onde é ministrado o retiro espiritual, milhares de famílias se dirigem para cá afim de não se inflamarem com a concupiscência gratuita desta época. Aqui nos refugiamos da roda dos escarnecedores. Partilhamos da mesma fé e deixamos a cidade grande durante a festa da carne, vulgarmente conhecido como carnaval, para nos desviar das setas do inimigo. O pastor Saulo tivera de resolver, logo no primeiro dia do retiro, alguns problemas relacionados a morte da pobre mãe, a quem não mantinha contato há dois anos. Disse-me que com a ausência de sua esposa, a missionária Rute, não haveria outra opção senão confiar tal tarefa a mim:"- O seminarista e estudante de teologia, é claro!", acrescentou ele. Mal tive tempo de pensar sobre a proposta quando fui surpreendido com a buzina do táxi do irmão Tomé apressando o Pastor. Esperei-o partir para me entregar a um medo que me arrebatara de súbito. Um terror incompreensível me afligia – não, eu o conhecia e sabia o que era. Corri em direção ao quarto, tranquei a porta e me pus de joelhos, escondendo o rosto com as mãos e pedindo ao Senhor que me desse forças, pois a minha fé era do tamanho de um grão de mostarda. Sei que Ele não me provaria além do que eu pudesse suportar. Orei com todas as minhas forças e chorara quarenta dias e quarenta noites de lágrimas antes de desmaiar.




Rio 03/03/94 (9:45 PM)Acordei por volta das 10 da manhã com um pouco de dor na cabeça mas confiante na minha tarefa, e como de costume entreguei o caso nas mãos de Deus, permitindo que fosse feita a Sua vontade. Após o término do almoço estava programado uma atividade recreativa em uma cachoeira, a trinta minutos de distância daqui. Senti calafrios dos pés à cabeça e lembrei-me dos meus tempos de menino, quando meus pais costumavam levar-me para programas de férias desse tipo. O diácono Henrique, um senhor muito bondoso de cabelos brancos ralinhos, em dias de batismo - que se davam eventualmente em rios e cachoeiras - tomava conta dos meninos da minha igreja que ao avistarem a queda d'água tratavam de despir-se, caindo na água alvoroçadamente. Eu era muito tímido. Tinha vergonha do meu próprio corpo e daquilo que fazia com ele. Quando me dava conta dos outros meninos evidenciando suas vergonhas, desprovido de pudores – eu os invejava e queria ser como eles. Eu queria estar entre eles, tê-los ao meu lado – de modo a reviver minha infância. Atividades físicas nunca me foram permitidas pois diziam que eu era feito de “porcelana”. Ficava encantado ao ver os moleques mais peraltas mergulhando n’um fôlego só, atravessando por entre as pernas de três ou quatro meninos. Os mais encorpados davam cascudos nos menos favorecidos por puro capricho sádico e isso de qualquer forma me excitava. Aqueles delicados corpos desengonçados, protegidos apenas por uma penugem quase invisível, celebravam a vida em sua plenitude – e isso de qualquer forma me denunciava, despertando em mim sensações alheias ao meu corpo. Lá fomos nós, os meninos do grupo de louvor e eu, para a cachoeira. Eles tinham entre dez e treze anos e estavam sob minha responsabilidade, enquanto seus pais assistiam palestras direcionadas exclusivamente aos adultos. Nessas ocasiões eram discutidos diversos assuntos: os homens eram exortados quanto aos deveres do varão abençoado; as mulheres aprendiam como lidar com as pressões familiares habituais – tudo isso sob uma perspectiva cristã nada tradicional. O movimento pentecostal reformado frutificava cada vez mais e seu número de membros triplicara nos últimos anos. Prefiro não descrever minha experiência dessa tarde. Receio que apagá-la de minha memória seria o mais conveniente. Não quero dar chances para a semente do pecado germinar, senão seria o meu fim.

Rio 04/03/94 (8:47 PM)Não consegui dormir a noite inteira. Fechava os olhos, e ainda assim no meio escuro, reconhecia o sorriso dos cascudos e lá estavam eles: todos demoniacamente desavergonhados. Os semblantes angelicais se transformaram em algo indescritivelmente grotesco. Suas mãos deram lugares a tentáculos, agarrando-me violentamente enquanto suas línguas de serpente ora devoravam-me a boca, ora cuspiam sementes de Satã. "Abstinência é sabor de fel na carne crucificada", assim lia-se nos olhos chispantes de cães famintos. Das profundezas do Hades clamei ao Senhor três vezes – porém anjo algum veio ao meu auxílio. E pensar naquele pecado distinto, perdurando um sabor cada vez mais doce em meus lábios, costas, pernas, ser. O inferno aquecia minha alma ternamente. A carne prevalecera sobre o espírito sem clamar indulgência. Não saí do meu quarto o dia inteiro. Não quero conversar com ninguém. Disse aos que vieram a minha procura que estava indisposto mas que isso passaria. Preciso espairecer meus pensamentos. Minha alma está doente e só o Senhor pode curá-la.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

meu mundo caiu


no camarim, em frente ao espelho retangular, a moldura ornada de pisca-pisca ressaltava a expressão enfadada da atração mais notória do último cabaré da lapa. madame mink apreciava o frescor da dose dupla de cuba libre tragando-a lentamente, ora chupando o canudinho, ora lambendo os lábios carmesins. fazia um calor atípico naquela noite de inverno e o suor descia-lhe do pescoço gota-a-gota, se perdendo nos ombros largos e perfumados de shalimar. antes de entrar no palco, olhou languidamente a foto de bette davis pendida ao lado esquerdo do biombo oriental em tons sombrios, e arrepiou-se. havia algo de sinistro naquele olhar emoldurado que a observava de soslaio. jamais o percebera exceto àquela noite. beijou as contas de oxum, presenteadas por uma paixão antiga que estivera de visita no gantois de mãe menininha, depois levantou-se da cadeira, ajeitou o vestido de lantejoulas prateado que evidenciava a silhueta pouco delgada, e seguiu em direção ao refletor que a faria brilhar. erguem-se as cortinas. no centro do palco um feixe de luz pálido promulga a aparição da artista. ela surge cabisbaixa – mas 'inda assim radiante – ao som de um trompete soturno embalado por uma orquestra tristíssima. fecha os olhos como se estivesse num transe ritualístico. eleva o microfone gentilmente a altura dos seios alegóricos e sem emitir sequer um som dos lábios, interpreta o samba-canção:
­
– "meu mundo caiu e me fez ficar assim" ­– continuou como se a dor fosse deveras sua:

"...você conseguiu

e agora diz que tem pena de mim

não sei se me explico bem

eu nada pedi

nem à você nem à ninguém

não fui eu que caí

sei que você entendeu

sei também que não vai se importar

se meu mundo caiu

eu que aprenda a levantar"

ao término da apresentação agradece aos aplausos com um sorriso cortês; de repente do fundo da platéia lhe atiram uma rosa de plástico. Sente-se lisonjeada pelo singelo troféu de puta e novamente agradece ao carinho e a gentileza dispensados. depois despede-se do público e retorna ao camarim.

tratou de vestir-se apropriadamente para deixar o cabaré, e assim que o fez decidiu partir. se não fosse pela mão robusta daquele estranho lhe segurando o braço esquerdo talvez lhe restasse outra saída:

– hei, 'pera aí – disse o estranho.

– oi?! ­– retrucou madame mink armando um sorriso tão artificial quanto a rosa ofertada, enquanto piscava os olhos freneticamente de maneira um tanto afetada.

– 'cê é show, hein?! realmente demais aquilo...show de bola mermo!

– muitíssimo obrigada, meu querido!

a barba por fazer somada aos galanteios insossos denunciavam a inexperiência púbere do rapaz. nem por isso notou menos aquela beleza ordinária, dessas que passam quase despercebidas. madame mink chegou a confundi-lo com um dos peões que descarregavam caixotes de legumes para a feira de domingo no passeio, mas achou pouco provável devido ao corpo magro e esguio.

– posso te pagar uma bebida ou coisa parecida?

– é que eu já 'tava de saída,
replicou ela. em seguida, corrigiu-se enrubescida: – bem, pelo menos eu 'tava até alguns segundos...

– isso quer dizer que eu tenho alguma condição? – indagou o rapaz levantando sobrancelhas e polegares, demasiado confiante de si.

– bem... – hesitou ela, unicamente para não soar fácil demais: – antes eu preciso saber o seu nome porque não tenho o costume de beber com estranhos.

– beleza! meu nome é diogo, prazer! e beijou-a duas vezes, da esquerda para direita, sendo que na terceira deslizou os lábios sorrateiros, denotando explicitamente suas sacanas intenções.

ele que dispunha de alguns trocados pagou a coca-cola. ela a garrafa de rum montilla. bebericaram duas, não mais que três doses de cuba, com ímpetos de afugentar a timidez e quando se deram conta lá estavam os dois se embebendo de luxúria em um motel barato na gomes freire. diogo a comia sem pena. ela dava horrores. ambos fodiam-se sem pudores. madame mink, agora de bruços, sentia todo peso do corpo magro e esguio de diogo. as mãos rudes de feirante apertavam-na os ombros largos deslizando até o pescoço suado. tinha a sensação de que as mãos do rapaz pesavam mais e mais. sentiu-se sufocada, mal podia respirar. diogo lhe sussurra com hálito quente ao pé do ouvido, quase encostando a língua em seu lóbulo: – não tenho pena de você... a cama girava como um furioso furacão enquanto madame mink piscava os olhos freneticamente – só que desta vez sem afetação. o shalimar fora substituído pela delicada fragrância da morte. a tez pálida, sem feixe de luz, sem refletor, prenunciava o baixar das cortinas para a cena final: meu mundo caiu – pensou ela antes de deixar o palco. diogo guardara o pau recém-gozado dentro das calças jeans, abandonando o cadáver frio que jazia ali, de olhos abertos, contemplando a garrafa de rum montilla e a rosa de plástico sobre o rádio AM/FM, ao lado da cama daquele motel sujo.

domingo, 2 de novembro de 2008


"Parem o mundo que eu quero descer..."

(Raul Seixas)

desautomatizar... e se fazer escrever algo sobre a vida; a vida em função “repeat”; a vida que não funciona para ser contada; ser o sinal vermelho que interrompe sem parar o fluxo – porque o fluxo, ah, o fluxo... –, amigo, ele não pára! não atender a droga do telefone celular – vai desfrutar daquele novo velho som que você baixou na internet por pura piração, por não ter o quê fazer, por não ter saco de ler, por não ter saco de escutar as músicas favoritas, por não ter saco “de não ter saco”, enquanto conversa com um velho amigo novo, que não pára de fumar igualzinho a você, sobre como tudo passa rápido, as horas, os dias, semanas, meses, de repente é mais um ano – porra tudo passa rápido pra caralho! deixar a porra do telefone tocar! o fluxo segue sem pena, neguinho! A vida de novela mexicana, com direito a menina-pobre-ingênua-que-se-casa-contra-gosto-da-família-do-mocinho-rico-com-pretendente-também-rica-malvada-que-persegue-à-mocinha-e-tudo: "clichê" é o caralho! a vida que furou o CD e o vinil de tanto repetir, que te faz ficar ancorado no passado, perdendo tudo que acontece neste exato instante; sobre a vida que “aos trancos e barrancos” ainda se faz escrita... desautomatizando...

judia de mim, judia


à paula gicovate


judia de mim, judia
parce que c'est belle,
minha bela,
la dolce vita

let's gonna chope the night away
e dá-lhe farofa
e dá-lhe galinha
longa vida à rainha de copas,
à rainha de copa,
à desdêmona hipocondríaca
salve, salve, regina!

judia de mim, judia
m'embala com chorinhos
tuas dores de bolero
chorinhos de tua perfídia
em tristes tangos argentinos
dor & música & verso

judia de mim
beutiful, beatiful, beautiful,
judia,
judia,
judia!

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

muchachas de copacabana


quando javier disse a odete que jamais haveria outra mujer que lhe fizera tão feliz quanto a ex-pobre garota de programa, os olhos azuis-turquesa do espanhol reluziam confissões de um amor sincero. a primeira vez que o espanhol viera ao rio foi paixão à primeira vista: as belas praias, a cidade imperial de petrópolis, a vista chinesa, a melodia sussurrada do engraçadíssimo sotaque carioca - e as belas meninas que exibiam seus corpos torneados tal como o majestoso pão de açúcar. não que fosse do tipo turista sexual - não era essa a questão. era homem de bem e de negócios, de caráter sóbrio. além do mais, que mal haveria em se deixar inebriar pelos lábios de cana-de-açúcar destilado das renomadas muchachas de copacabana? conhecera outros gringos nos prostíbulos da zona sul e vez e outra ia de encontro aos novos amigos para tomar um drinque, jogar conversa fora e, é claro, apreciar as meninas. na noite em que trocara olhar com odete não contava com a peça que o destino lhe pregaria. tudo estava em seu perfeito lugar, como deveria estar. “– tem fogo?”, perguntou odete. “– si, si, claro!”, respondera ele gentilmente ao clichê em forma de convite de aproximação. odete não intencionava flertar com o espanhol – uma das meninas de fato lhe tomara o isqueiro emprestado e minutos depois desaparecera com um cavaleiro inglês. era sua quarta semana na batalha e só não deixara de exercer a profissão mais antiga do mundo por gratidão à velha sofia – cafetina de luxo e estrela decadente dos tempos de ouro da rádio nacional. sofia lhe estendera a mão solícita quando a mulata da baixada fluminense cansou-se da revenda de cosméticos: “– quem consegue sobreviver com míseros quatrocentos reais por mês?”, reclamava odete antes de dedicar-se a tal empreitada. o javier bem que se divertiu com o ritmo caliente de odete, como haveria de ser. odete tinha um quê de bossa-nova, uma tristeza tépida quase elegante. seus olhos negros e irresolutos descompassavam o espanhol dos pés à cabeça. javier não percebera - no primeiro encontro já estava tão enovelado quanto as tranças nagô da jovem mulata. as visitas ao brasil tornaram-se cada vez mais frequentes, até que um dia não resistiu e entregou os pontos: “– compramos um apartamento e dividiremos o mesmo teto de hoje em diante”, disse com ar de príncipe encantado. tudo parecia as mil maravilhas para o casal mais feliz do ano. a odete, que naquela altura havia se matriculado no curso de psicologia, acabara de concluir seu primeiro período na faculdade. para comemorar, javier levou-a para paris. ela contava toda prosa, com o sorriso do gato de alice, tudo que havia aprendido nas aulas de introdução a psicanálise, enquanto os dois saboreavam uma garrafa de beaujolais nouveau, vinho favorito de javier, no restaurante chez rené no quartier latin. depois o casal de enamorados amaram-se loucamente sob as luzes difusas da pont neuf - como haveria de ser. de volta ao rio, os dois seguiram contentes até um certo mês de agosto, um ano após a viagem. javier se dera conta de como seus ímpetos masculinos o haviam traído. certa tarde em que odete se encontrava na faculdade, o espanhol acometeu-se de uma terrível saudade dos tempos em que não acordava todos os dias com a mesma mulher. não que duvidasse de seu amor por odete, só que por alguma razão, ainda que inexplicável, a felicidade lhe amargara o paladar. tudo havia se tornado tediosamente previsível. sua nova vida no rio não lhe reservara mais surpresas. do alto da sua cobertura em copacabana, javier se vira enfadadíssimo. foi quando resolveu discutir o caso com odete de forma sincera: disse que preferia ser honesto com ambos. não queria feri-la mas precisava de um tempo para refletir sobre a vida a dois. e como é sabido por todos: dar um tempo é tarefa individual. odete não questionara a decisão do espanhol, porém foi obrigada a chorar quando juntou seus pertences para nunca mais voltar. era uma vez cinderela. ao decorrer de três meses, o suficiente para cicatrizar as feridas de amor, javier preferiu não abrir mão da cobertura – afinal, o rio de janeiro não pagaria o preço por um caso de amor malogrado. ao findar do sétimo mês, lá estava ele novamente a passar noites em prostíbulos, jogando conversa fora com outros gringos, bebiricando drinques, cercado pelas mais belas damas de aluguel de copacabana. tudo estava em seu devido lugar, como deveria ser. houve uma noite em que seus instintos exaltados falaram mais alto e ele resolveu levar uma menina para cobertura. saciou seu apetite carnal com a mulata mais cobiçada da boite help. ao término do serviço sexual - que não incluía dormir em forma de conchinha - a menina, sem fazer cerimônia, pediu o lhe era de direito, vestiu-se e foi embora. estirado sobre cama de casal, ainda nu, javier acendera um cigarro e sorriu. talvez, como haveria de ser, o amor fosse uma puta sem beijos de despedida.

domingo, 21 de setembro de 2008

apropriação poética ou chupação inescrupulosa?

Imponente, fica olhando pra mim com esse ar de quem me conhece por inteiro, e conhece. Sabe das minhas crises, do quanto eu esperneio, do quanto eu quero um pouco mais de tudo, do meu choramingar amor como menina mimada. Sabe que é a ele a quem eu vou recorrer, sabe que vou sentar e desfiar rosários, que é pra ele que conto os segredos mais pesados, o que ninguém mais sabe, o que ás vezes nem eu sei. Ele me disseca, me reescreve por partes, me documenta feridas, mexe onde eu não quero que doa, me aponta a vida tão crua, tão sobriamente real, tão cheia de casos e pessoas esquecidas atrás de lugares em mim que não mostro pra ninguém. Ele conhece todas que aqui habitam. A folha em branco, objeto de desejo de noites insônes, de pseudo epifanias criativas, de cartas de amor rasgadas, de sonhos que duram uma semana, é quase uma anatomia do meu corpo. E hoje ela não vai saber de nada. Essa dor é só minha. De mais ninguém.

(Paula Gicovate)
***

ninguém mais
só ele me reescreve
ele desfia a vida esquecida
de pseudo cartas de amor dissecadas
o quanto quero feridas criativas das minhas crises rasgadas
de sonhos insones e apontados
ele conhece
sobriamente crua
essa mimada de rosários brancos
de todas as partes um pouco
onde eu quero que doa
anatomia de dor
(esperneio pesado)
me documenta aqui
os segredos de uma menina imponente

sábado, 16 de agosto de 2008

primeira postagem

sábado quente. o café desperta meus sentidos sem afugentar a preguiça. martinho da vila canta no rádio "quem é do mar não enjoa" – já enjoei de praia. copacabana me engana? cansei-me dos superbacanas. nem acordei com naúsea sartriana esta tarde: o dia parece tão bonito lá fora. tenho pena das pobres plantinhas enterradas no vazo terracota. necessito um pouco de ar e água fresca. espero não desistir de escrever antes de me divertir um pouco.