sexta-feira, 7 de novembro de 2008

meu mundo caiu


no camarim, em frente ao espelho retangular, a moldura ornada de pisca-pisca ressaltava a expressão enfadada da atração mais notória do último cabaré da lapa. madame mink apreciava o frescor da dose dupla de cuba libre tragando-a lentamente, ora chupando o canudinho, ora lambendo os lábios carmesins. fazia um calor atípico naquela noite de inverno e o suor descia-lhe do pescoço gota-a-gota, se perdendo nos ombros largos e perfumados de shalimar. antes de entrar no palco, olhou languidamente a foto de bette davis pendida ao lado esquerdo do biombo oriental em tons sombrios, e arrepiou-se. havia algo de sinistro naquele olhar emoldurado que a observava de soslaio. jamais o percebera exceto àquela noite. beijou as contas de oxum, presenteadas por uma paixão antiga que estivera de visita no gantois de mãe menininha, depois levantou-se da cadeira, ajeitou o vestido de lantejoulas prateado que evidenciava a silhueta pouco delgada, e seguiu em direção ao refletor que a faria brilhar. erguem-se as cortinas. no centro do palco um feixe de luz pálido promulga a aparição da artista. ela surge cabisbaixa – mas 'inda assim radiante – ao som de um trompete soturno embalado por uma orquestra tristíssima. fecha os olhos como se estivesse num transe ritualístico. eleva o microfone gentilmente a altura dos seios alegóricos e sem emitir sequer um som dos lábios, interpreta o samba-canção:
­
– "meu mundo caiu e me fez ficar assim" ­– continuou como se a dor fosse deveras sua:

"...você conseguiu

e agora diz que tem pena de mim

não sei se me explico bem

eu nada pedi

nem à você nem à ninguém

não fui eu que caí

sei que você entendeu

sei também que não vai se importar

se meu mundo caiu

eu que aprenda a levantar"

ao término da apresentação agradece aos aplausos com um sorriso cortês; de repente do fundo da platéia lhe atiram uma rosa de plástico. Sente-se lisonjeada pelo singelo troféu de puta e novamente agradece ao carinho e a gentileza dispensados. depois despede-se do público e retorna ao camarim.

tratou de vestir-se apropriadamente para deixar o cabaré, e assim que o fez decidiu partir. se não fosse pela mão robusta daquele estranho lhe segurando o braço esquerdo talvez lhe restasse outra saída:

– hei, 'pera aí – disse o estranho.

– oi?! ­– retrucou madame mink armando um sorriso tão artificial quanto a rosa ofertada, enquanto piscava os olhos freneticamente de maneira um tanto afetada.

– 'cê é show, hein?! realmente demais aquilo...show de bola mermo!

– muitíssimo obrigada, meu querido!

a barba por fazer somada aos galanteios insossos denunciavam a inexperiência púbere do rapaz. nem por isso notou menos aquela beleza ordinária, dessas que passam quase despercebidas. madame mink chegou a confundi-lo com um dos peões que descarregavam caixotes de legumes para a feira de domingo no passeio, mas achou pouco provável devido ao corpo magro e esguio.

– posso te pagar uma bebida ou coisa parecida?

– é que eu já 'tava de saída,
replicou ela. em seguida, corrigiu-se enrubescida: – bem, pelo menos eu 'tava até alguns segundos...

– isso quer dizer que eu tenho alguma condição? – indagou o rapaz levantando sobrancelhas e polegares, demasiado confiante de si.

– bem... – hesitou ela, unicamente para não soar fácil demais: – antes eu preciso saber o seu nome porque não tenho o costume de beber com estranhos.

– beleza! meu nome é diogo, prazer! e beijou-a duas vezes, da esquerda para direita, sendo que na terceira deslizou os lábios sorrateiros, denotando explicitamente suas sacanas intenções.

ele que dispunha de alguns trocados pagou a coca-cola. ela a garrafa de rum montilla. bebericaram duas, não mais que três doses de cuba, com ímpetos de afugentar a timidez e quando se deram conta lá estavam os dois se embebendo de luxúria em um motel barato na gomes freire. diogo a comia sem pena. ela dava horrores. ambos fodiam-se sem pudores. madame mink, agora de bruços, sentia todo peso do corpo magro e esguio de diogo. as mãos rudes de feirante apertavam-na os ombros largos deslizando até o pescoço suado. tinha a sensação de que as mãos do rapaz pesavam mais e mais. sentiu-se sufocada, mal podia respirar. diogo lhe sussurra com hálito quente ao pé do ouvido, quase encostando a língua em seu lóbulo: – não tenho pena de você... a cama girava como um furioso furacão enquanto madame mink piscava os olhos freneticamente – só que desta vez sem afetação. o shalimar fora substituído pela delicada fragrância da morte. a tez pálida, sem feixe de luz, sem refletor, prenunciava o baixar das cortinas para a cena final: meu mundo caiu – pensou ela antes de deixar o palco. diogo guardara o pau recém-gozado dentro das calças jeans, abandonando o cadáver frio que jazia ali, de olhos abertos, contemplando a garrafa de rum montilla e a rosa de plástico sobre o rádio AM/FM, ao lado da cama daquele motel sujo.

Um comentário:

Larissa Marques disse...

MUITO BOM, esse está demais!
O ápse não foi a morte e sim o enforcamento! Gostei!